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Caveira

A curiosidade pela freguesia da Caveira começa logo quando se houve, pela primeira vez, o seu nome terrificador, que não pode deixar de espantar qualquer lusitanista. A origem do topónimo é desconhecida, mesmo se a chamada Lenda da Caveira já foi esquematizada por outros escritores. Basicamente, a lenda viria dos primórdios do povoamento e seu protagonista é o náufrago Demétrio, recolhido no rolo e acudido no lugarejo que nunca mais deixou. Demétrio adorava as pessoas e a sua religiosidade mas, apesar de cristão, pensava que paraíso, purgatório e inferno fossem uma treta, assim como as orações pelos defuntos; tratava-se de um pensamento invulgar e sem dúvida "protestante" no século XVI, e a lenda conta que o homem morreu com as suas grandes questões e dúvidas. Depois do falecimento do náufrago adoptado pela comunidade, começou a brilhar no cume dum morro uma caveira incandescente, gritante, que pedia para que rezassem pela sua alma. Os habitantes do lugar, naturalmente assustadíssimos, rezaram em coro para a clemência de Deus; assim, como escreveu Guido de Monterey, "a caveira desapareceu, mas deixou que a própria lenda se assenhoreasse do local". O mistério da Caveira continua conturbante e talvez o heretismo imperante no III Milénio devolva a caveira fluorescente, uma possível bendição turística para esta freguesia de grande beleza (sobre)natural.

A freguesia da Caveira tem por orago as Benditas Almas e a igreja actual com o mesmo nome é do século passado, tendo começado em 1867 os trabalhos para a sua construção. A curiosa invocação do séc. XVIII poderá relacionar-se com a Encomendação das Almas, uma antiga devoção quaresmal exclusiva de Portugal e das terras por onde os portugueses se expandiram. "Encomendar", "lembrar", "apregoar" as almas ou "cantar às almas" era uma tradição religiosa bastante macabra também em uso nas Flores, onde até cerca de 1930 era comum em toda a ilha com excepção da vila de Santa Cruz, que já a esquecera. Ao crepúsculo os encomendadores, com xales pretos nas cabeças, cantavam num tom cavo e lúgubre e, conta-nos Pedro da Silveira, os que em suas casas os ouviam ajoelhavam-se e rezavam os padre-nossos e as ave-maria pedidos. A elevação a paróquia do lugar da Caveira, topónimo já identificado por Gaspar Frutuoso em finais de quinhentos, deu-se por alvará de D. João VI em 19 de Dezembro de 1823 a pedido do reitor da vizinha freguesia da Lomba, padre José Joaquim de Almeida.

A Ponta da Caveira, importante prominência da recortada costa florense, alberga no seu lado setentrional a bela Gruta dos Enchareus, a maior e mais famosa das Flores, com cerca de 50 metros de comprimento e 25 de largura. É visitável de barco e segundo a tradição foi esconderijo de uma embarcação corsária, que em finais de quinhentos conseguiu escapulir-se à perseguição dos navios de Espanha e da Provedoria das Armadas Portuguesas.

Aninhada sobre a crista da homónima Ponta, entre vales profundamente cavados e alcantiladas montanhas, a Caveira é a mais pequena freguesia dos Açores por território, hoje em dia com cerca de 75 habitantes. Ao longo do século XX o povoado "desceu" consideravelmente pelo topo da ponta, abandonando progressivamente a Caveira de cima, onde começou o povoamento e onde fica a igreja, hoje bastante descentrada em relação ao núcleo habitado; o seu altar-mór, danificado pelo tempo, foi novamente dourado em começos de 1998.

Festas Tradicionais: se a pavorosa encomendação das Benditas Almas já não se verifica há mais ou menos sessenta anos, na Caveira também se realizam, como em qualquer outra freguesia dos Açores, as festividades do Espírito Santo e no último domingo de Junho festeja-se igualmente São Pedro, um santo muito popular nas Flores. No fim do Verão, a Festa da Padroeira Nossa Senhora do Livramento tem lugar no terceiro domingo de Setembro, juntamente com o Bom Jesus: um casamento perfeito!